outubro 27, 2004

Poema em Processo de Construção

INVENTÁRIO

1

Um dia, sem tristeza ou alegria,
esta enumeração
há-de ser uma conta de somar
com um fim parecido ao da
                                   registadora
que acumula durante o dia
pessoas num café,
sem que ninguém depois venha a saber
que contas afinal eram aquelas,
restando a ideia ambígua
de vidas que perpassam vagamente,
tão emaranhado é o mapa
das cidades que vão ficando para trás,
na lembrança, essa abóbada
que contém as imagens imprecisas:
as reais do inventário
depressa se consomem, estrita solidão.

2

Um homem, um olhar, um teclado,
as estantes, os livros, o escritório,
uma janela a leste, uma outra a sul,
o mapa das estradas percorridas
na Europa mitológica e melancólica,
marcadas por amor à aventura;
a estátua de Posídon que comprou
numa loja do bairro de Plaka;
quadros de Gargaleiro trocado
por coisas comezinhas em Quiaios;
a execução de Sir Thomas More
numa feira da ladra há muito;
o retrato naïf da irmã,
pintou-o o namorado dela a óleo,
ambos já estão mortos, sobrevivendo algures;
o auto-retrato de um pintor que não existe,
herdado de lembranças e revolta
que ainda permanecem como lume:
atravessam de súbito o escritório,
relâmpagos vermelho-escuros,
uma luz no seu lado lado inverso, interior,
rasgada como sangue espesso,
                                   as trevas
de onde nasce o sol cálido
que sustenta lá fora
o abeto, o cipreste, os cedros,
a palmeira no exílio,
o buxo do jardim antigo
                    como um passado
                    que renegou:
lembra-se de uma flor de lis heráldica
e nomes que diziam com orgulho,
donatários de el-rei, a grande casa,
os vivos orgulhosos dos seus mortos
sem saber o que foram, todos nascem de alguém,
já os olhos se perdem na folhagem,
na luz verde de um deus pagão, as árvores.

Em cada anoitecer
os autocarros, cheios de homens e mulheres,
vão da janela sul para a de leste,
são um tempo de seres sem destino,
presente sucessivo
sem futuro e nenhuma eternidade.

3

Quem pode enumerar o inumerável,
o que se sente atrás das coisas?
O mesmo é dizer dentro do homem,
    algures,
numa zona recôndita onde o genes
e o caos determinaram a memória.
E, no entanto, sozinho na cidade,
a ouvir o rasto líquido dos pneus
no asfalto, à chuva, e os carros em suas longas rotas,
nem sequer se dá conta
de que o tédio talvez seja a soma
do inumerável junto,
a forma de sentir a densidade
do presente, esse tempo variável
conforme for passado
ou viver hoje o riso
que não enumerou.
O riso não se prende ou se acumula
como os quadros de Uranga, o basco
uma vinha, uma praia e Paris a chover,
tapas e txakoli, preços discutidos
numa tasca de cheiros diferentes,
onde iam proletários pós-modernos,
com jeans e blusões de cabedal.
E o homem rememora
a alegria dos filhos em Zarautz,
o esquilo coreano que trouxeram,
a praça do coreto, a música à noite,
uma sopa de peixe, dois restaurantes caros,
o chocolate e churros no passeio marítimo,
a praia cuja areia o mar galgava
e a corrente do Golfo, morna,
tudo isto não existe nos quadros
e, no entanto, é possível não sair
do escritório e juntar imagens
    ao inventário,
embora meramente virtuais.

4

O retrato do pai ― e a assinatura?
Quem foi Francisco Afonso? Vai-se o nome,
tão-só a vida anseia a luz do traço ―,
o retrato do pai
acreditava, assim seguro,
que o tempo ainda não passava
aos quarenta e quatro anos,
talvez vivesse só para o prazer,
                                lembra-se agora,
ao ver-lhe os lábios um pouco grossos
e refinadamente lúbricos
que permitem somente enumerar
os pássaros que tinha aprisionados,
a horta de coisas raras,
os bonsais, as fruteiras,

os espessos romances, Proust, Joyce, a poesia
e a sombra de poetas que chegavam,
a música nos discos de vinil,
Mahler, Shostakovich, Debussy,
orquestras e corais,
pianos ligeiríssimos
por dentro do seu sangue transmitido,
lembranças incompletas
                ou que se ocultam,
e invadem o dia-a-dia, casuais.

5

Trouxera-lhe um jagunço da Bahia,
que dia e noite, mês após mês,
vigia da janela sul há anos
o perpétuo fluir dos carros,
os olhos do escultor naïf
talhados na madeira, o seu exílio.
E que sorridente ela sobraçava a estátua,
um ar de aeroporto
nos olhos verdes, sol e vento,
e o espanto do troféu enorme.
Não pode dividir a imagem desse instante,
não pode enumerar o chapéu de palha,
o rosto do jagunço, o nariz aquilino,
o cachimbo, a camisa pobre, os pés descalços,
e que daí renasça a luz alegre
naqueles olhos verdes que brilhavam.
Nem as sardas do rosto,
nem bonecas, nem fotos de verão.
Quando partiu levou com ela
o tempo indivisível de outra infância,
e, de um quarto vazio,
o espelho onde crescera,
os posters, a cama alta,
o armário, a escrivaninha de segredo,
em nada já lhe serve enumerá-los.

6

Não se deixam pegadas nos caminhos
e deles o que resta é a chegada,
e sabe que as chegadas um dia hão-de apagar-se.
Mas enquanto durar o sol nos vidros,
a casa devoluta, o abeto, o rosmaninho,
a piteira agressiva, ser do caos
que gera no seu cálice tigres extintos ―
enquanto o azul do céu durar
                              sobre a manhã,
cada dia é sempre uma chegada,
e o homem vê na aguarela
a casbah de Assauira,
a Cidade do Vento,
onde sonhou viver um dia
para todo o seu sempre, que era tudo
quanto tinha da vida para dar
em troca do silêncio
no interior da voz do mar,
o mar que havia lido em Azurara,
e os pescadores, os barcos, as tabernas escuras,
cheias de antigos mouros em bancos corridos,
                          a ver tevê
                           nas caravelas,
branca Lagos da História que não sabem,
e a praça com palmeiras e o thé à la menthe,
uma mesa, a esplanada, um livro,
o presente expurgado da memória
e da esperança vã desnecessária.

7

A nascente do rio é uma abstracção
mais vasta que a memória.
As águas descem rumo à foz
e sobem, pelas nuvens, à nascente,
incontáveis milhões de anos antes de o homem
dizer este é o rio que me flui nas veias
flui na fotografia, está a imaginá-lo
como o seu próprio sangue,
no conforto de haver um tempo
depois da morte, não o havendo.
O rio corre apenas, mera especulação,
e, no entanto, real para os que hão-de passar
na margem da Foz Velha depois dele,
juntando na lembrança coisas enumeráveis:
a pesca à linha, o voo dos picanços,
o grito das gaivotas misturado
ao rumor da água, voz do tempo
nas barcaças da areia naufragadas
e já desfeitas, de uma outra era
anterior à sua, símbolos
que anularam uma idade,
estratos sobre estratos de enumerações,
as tias, e antes dessas tias, outras
de outros homens iguais,
só aparentemente vários
na captação de imagens com que a luz
fere a retina e dá cor própria
aos Pilotos, aos barcos, às janelas
que verberam o sol,
só aparentemente vários
e realmente diversos no momento
em que enumeram,
gravando a sua voz nas águas.
Eu vi multiplicarem-se as casas
― diz o homem ―,
as ruas, os amigos, os cinemas,
os jogos de bilhar no café Diu.

E amou Rosário, Gi, Teresa, Manuela,
todas até os seus quinze anos,
altura em que saiu sozinho da cidade,
deixando já atrás de si ruínas,
a casa destruída e tão antiga,
para vir a ser mais tarde o que é hoje:
uma casual soma de palavras,
um inventário, anónimo em sua relação.

8

Como pode contar-se o que não se tem,
como pode fazer parte de um rol
o que não existe e é inventariável,
como enumerar lenta e meditadamente
a espécie de falhanço que é não alcançar
o inalcançado?
E no entanto o sol que entra pelos vidros,
o sol desta manhã tão nova,
ilumina-lhe e aquece a secretária
como coisa real em si,
o agrafador, um porco sem moedas,
uma lata com lápis e esferográficas,
o livro de Zurara, o de Camões,
o de Ricardo Reis, um de Sena,
juntaram-se ali todos, objectos irreais,
                                                  os livros.
Só quando ao sol os abre, escuta:
No mundo poucos anos, e cansados,
Vivi, cheios de vil miséria dura
”,
e imagina como era a vida deles,
ferozmente concêntrica,
em busca do que não existe,
e cada vez mais longe de saber-se
aquilo que buscavam. O homem, esse
queria o campo, o silêncio.
Sem pensar, gostaria às vezes
de que as palavras fossem,
como o corpo, um pequeno cofre, cinzas
sob a lira do vento, as árvores,
recordava Wells em Ronda,
eu sei, eu sinto, eu vejo como o vento” ―
sem pensar, porque os mortos, diz,
são ideias dos vivos, e a ele enfim
o que interessa é os campos
que olha ao passar no carro,
uma casa de cal e sol, galinhas,
meia dúzia de cabras, cão e gato,
um corvo como o de Poe,
os livros e os CDs
depois de uma triagem rigorosa,
e todos os quadros:
talvez, numa manhã de sol como esta,
a luz abrisse o livro de Reis, e escutasse:
É tão suave a fuga deste dia,
Lídia, que não parece que vivemos
.”
Quem sabe? meditando nestes versos,
também dela pudesse enumerar os traços,
mas só da sua imagem, não de Lídia,
que vive à beira rio e viva prevalece.

9

Paredes de escritório como aquelas,
estéreis de alumínio e vidro,
de madeira prensada a fingir mogno,
parece nunca o terem rodeado,
e no entanto gastou parte da vida entre elas
a dar-se-lhes de um modo cego,
a confiar no tempo como
se os pássaros que um dia vira,
livres como metáforas da beleza,
os tivesse esquecido para sempre
e não voltassem mais.
                   Por isso
nada ali se enumera com sentido,
móveis de superfícies nuas,
a mesa circular onde reúne
para falar de tudo menos de arte,
as cadeiras vazias em redor,
sem nada pessoal a secretária,
balancetes em montes geométricos,
palavras de algarismos,
o ar condicionado que ronrona.
Não há ali volume do passado
ou futuro viável, ó lembrança doce,
há um presente estranho
que resiste arquivado em pastas.
O homem recorda as coisas
que o levarão de volta, ao fim do dia.
Nada de novo vão trazer-lhe.
   Talvez lhe baste
   o que o acompanha:
as notícias na TSF, a Antena 2,
a imagem de um sorriso, e logo
as giestas transidas
nos faróis do carro e,
                           no vidro ao lado,
o planalto e as aldeias que levitam
para lá do seu tempo,
no tempo tão alheio das estrelas,
e enfim a ideia em si sentida
do que é não haver esperança:
paredes como aquelas
onde ninguém escreve um grito.

10

Da desistência sobram não lembranças,
por baldios cinzentos sobra tudo
o que não alcançou e não pertence
a nenhum dos pretéritos imediatos,
faz parte de um futuro
que se tornou passado já
por não ter chegado ao seu próprio limiar.
Recolhendo-se a si mesmo, onde viverá,
como há-de resistir,
rodeado de imagens que não mais
                                    irão cumprir-se?
Que lhe interessa o inventário
se tudo que ansiava lhe parece
inumeravelmente abstracto?
O modo como a chuva canta é tão diverso,
o vento pelas ruas encanado
                                    tem outra voz,
os caminhos, a serra, os restaurantes,
a ligeira esperança que era um hálito,
as lentas mãos que tinham, recolhendo,
a intimidade próxima de um cheiro,
o tempo que pousava, longe do
                                    contra-relógio
que ameaça e rebenta o coração
de qualquer um de nós um dia,
tudo se tornou tão abstracto,
tão afastadamente alheio ao homem
quanto alheias e injustas podem ser
as causas da ruína.
Mas ele sabe, mesmo assim, que tem
de desfiar a história, a sua na de todos.
Não sabe é quanta gente na cidade
enumera perante o medo as coisas
que afirmam ser de Deus.
Talvez se revoltasse, contando quanto
lera e vira e trazia na memória,
entregando ao acaso a sua desistência.

11

A enumeração é um acto variável
e tão diversamente heterogéneo
que ninguém poderá fazer
o inventário completo dos seus bens
e marcas que carrega. Mas o homem
pensa na inesgotável fonte do desejo
como sonho que nunca se exauriu
e, mais que bens e marcas e lembranças,
é o que, presente e mais alto, o povoa,
enumerações líricas de há muito
suas em tanta falta recolhidas.
Não imagina se todos saberão
das ruas e cidades
que se tornou preciso abandonar,
imagens de um passado quase alheio
em frente do diálogo
tão diverso daqueles que tivera,
o modo de dizer certas palavras
numa conversa em cujos lábios ele segue
o feminino cálido de se moverem,
a forma de estar dentro de outras
                      que se adivinham
                      antes de escritas,
o silêncio das coisas partilhadas,
o perfume florido, o afago leve,
os pequenos objectos da realidade,
a cadeira, a faúlha fria
que sujou a almofada,
as maçãs biológicas de uma macieira
ingénua abandonada,
o livro de E. Lourenço sublinhado
cujos traços de lápis o homem
seguia velozmente como se a seguisse a ela,
raios de luz direitos
ao lado interior do pensamento,
onde calor da pele se funde
no presente tão rico
                      e tão real
que só nele é possível respirar.

12

Há quem tenha um lugar,
quero dizer, aqueles
que olham o céu da sua terra,
                   ao regressarem
pela linha segura do horizonte,
             sem nenhum frio,
                                ou tédio,
ou carência de gestos maternais.
Não são esses que fazem o balanço
a quanto de raízes não possuem,
ainda que conheçam o passado
como parte impossível da realidade.
E mesmo que seguissem o trilho daquele homem,
recuariam logo, o susto, o medo
de baldios sem cânone,
                 de objectos sem
clara denominação de origem,
porque não tratam, como ele,
de nenhum inventário, quanto mais
de um rol de coisas tidas sem as ter,
ou tidas no reduto de viver sozinho
num escritório cheio de livros,
as enciclopédias pagas a prestações
                            há muito tempo,
fósseis de uma outra idade,
alinhados em toda uma prateleira
                                    do cimo
para que ninguém mais lhes toque,
e logo abaixo metros de poesia,
de vidas estendidas por quilómetros
de anseios e poemas.
Conhece os livros quase todos de memória
e ao tacto de esfolhá-los,
muitos com o papel envelhecido,
pergaminhos da derme dos seus donos
                                       extintos,
de quem só resta o nome e os versos,
nada deles havendo se morreram no entanto,
só os vivos que os lêem é que os julgam
imortais ― que tolice!
O homem está nas tintas
para o que os outros pensem da poesia:
um dia o leiloeiro vem
e mede com seu metro os livros todos,
não interessa a ordem alfabética
em que os pôs ainda há pouco, desesperado.
Dante há-de ser vendido ao preço de
Danila não sei quantos e
não sabe se Camões em papel bíblia
será avaliado abaixo
de um livro de cozinha regional.
O mais certo é que todos vão parar à reciclagem,
coitados dos poetas velhos vivos
e dos poetas novos,
mais que Jorge de Sena assim desfeito.
Um dia o leiloeiro chegará
e há-de levá-los todos em seu camião,
deixando nus os muros
que outrora defendiam o homem
do frio das estrelas, falsamente.

13

Se não fosse Dezembro saberia
enumerar os pássaros,
assim não há ninguém, com este frio,
que se lembre de pássaros e campos,
hoje blocos de prédios,
de pisos sucessivos,
de quartos sobrepostos onde o esperma ejacula.
Imagine-se então, na falta de repouso,
o que era de repente
as paredes dos quartos se sumirem
e casais, ignorando-se uns aos outros,
encherem um deserto como estivessem,
nus ou meio despidos,
sem as camas, na areia, bombeando
a subida dos líquidos do centro da medula.
Que visão, essa do homem,
que imagem desolada
o percorre e reduz. Somente
falta o cameraman para provar
que é apócrifa a ideia solidária
que tem da humanidade e passe a ser
o que dela resta, uma tribo
de rostos de crianças,
de gente no café que fala,
de amigos e de seres que sabia
terem sido a família, no silêncio.
Mas também as imagens destroçadas
dos mortos pela guerra,
o permanente estado de ira,
os dias que contava para a paz chegar,
e hoje a melancolia
de não poder saber onde estará
aquela gente toda em debandada,
parte da humanidade que foi sua,
território marcado algures
pela urina dos cães selvagens
aonde ninguém mais há-de voltar.

14

Não é a mesma coisa que viver, reunir
numa sala deserta as tias que partiram,
sentadas em cadeiras de braços como dantes,
alegres em redor da mesa
com uma dessas toalhas de chá e linho.
Os pães de leite, os doces, as torradas,
o bule chinês, as chávenas casca de ovo,
o rosto tão fugaz da mãe,
cena filmada a preto e branco
por Buñuel e Orson Wells Welles ao mesmo tempo
Sabe o homem que é possível desse modo
dar vida à sua própria vida recriada
sobre coisas e seres que ao longo dos anos
se foram transformando;
dar vida, embora falsa, a imagens apagadas,
construindo com elas as horas do balanço.
Mas se todos escrevem no espelho dos rios,
mover-se-á somente
como num filme antigo, a imitação do tempo
enquanto na memória o filme for passando.
Talvez devesse, pensa ainda,
ir junto dos irmãos, não à procura
da clemência de Deus que eles um dia
hão-de rogar, não sabe,
ou cerrarem fileiras à morte do passado,
no meio da alegria apócrifa
de estarem juntos ao redor
de uma mesa real ― há quanto não se vêem.
Se fosse junto deles, levaria o filme
de Buñuel e Orson Wells Welles,
e falava entrem nessa sala e vejam
quem se senta em redor da mesa
e de quem é o rosto tão fugaz
.
Haviam de dizer não se vê nada,
deve ter-se estragado o filme. Só se vê
um carrinho de esferas como os teus que tinhas
e atrás lê-se a palavra “Rosebud”.

15

Lembra-se de uma foto, a mãe com ar antigo
sustentando-o no colo, a alegria serena
do seu terceiro filho, algures na ilha estranha,
e ao lembrar essa foto que não tem,
que o viver tão vãmente de cidade em cidade
havia de apagar ou, mais provavelmente,
de perder-se nalgum cais de comboio,
ao lembrar essa foto umbilical
medita em quanto a morte é sem regresso,
como pôde deixar nos olhos
um filtro fotográfico que, enevoando a luz,
o obrigou a voltar-se para dentro
da acepção das palavras devoradas
em livros onde a vida é imitada
ou a beleza é trocada pela vida.
Cedo sentiu Mersault, Hamlet, Cassandra
instilarem a sombra no seu sangue
e nascer entretanto a ânsia de salvação
da velha antologia de Bandeira:
Teus pés tapo voluptuosos: é por isso
que andas com tanta graça, Ó Cassiopéia!
”,
mergulhando e subindo à superfície
do vórtice de imagens virtuais,
com rostos do real, com caminhos, com casas,
a presença do corpo em tudo, preparando
o tempo de balanço que havia de chegar,
como há-de chegar o outro,
como veio o da mãe, não sobrando sequer
para o homem essa foto, de mistura
somente na memória com imagens
que nem sequer existem
                        como lembranças,
são só recriações de quem chegou
a um lugar, nada tendo e tendo tudo,
vagaroso inventário
de coisas que sabia e lhe faltavam,
mesmo aquele momento
em que viu a mulher chorando alguém
na relva verdejante, sobre um número do
cemitério nazi de la Cambe,
sessenta anos depois do Dia D,
mesmo esse casual momento
o enumera, ao lembrar-se de uma outra necrópole,
rodeada de prédios e de carros,
do barulho de eléctricos e das floristas
que anunciam crisântemos de plástico,
onde não sabe o túmulo da mãe
porque ninguém lho disse,
porque nenhum dos rostos vivos o ensinaram,
porque, depois de adultas, as crianças
são sempre inimputáveis
e enquanto não crescerem
não podem conhecer nada da morte.

16

Do amor recolhe os rostos um por um,
na lenta ascendência ao presente
e deles despojado. Não são muitos,
e mais, já não existem. O que existe
é a tevê vulgar, os pratos de marisco,
o almoço especial de festa,
a luz do sol que passa os cortinados
e lembra o maremoto surgido do não tempo
ao tempo fraccionado dos homens pela morte.

Daqui a anos ninguém lerá
a data incrivelmente abstracta:
é o primeiro dia de 2005.
Sentado à mesa, escreve,
e o corpo que se dava à carne túmida
não é mais do que a imagem virtual
de gestos amorosos apagados,
jardim público a sul onde as gardénias
estavam sempre a mais
por não serem precisas ao amor,
por nenhum as olhar
do banco de travessas verdes entre buxos,
e se hoje as convoca é para que haja um sentido,
ou verdade aparente.

Não se podem tentar reter gestos do amor
suspensos na memória sem sentir
o enjoo do vazio.
As flores que vieram depois,
as flores dos jardins e da lembrança
que enfeitariam hoje a sua face
entre árvores e arbustos camarários,
sem odores simbólicos,
essas vivem por si somente:
                                   falo de flores,
num rol subentendido de alegria,
que enquadrassem os olhos dela,
aquela que ele diz primeira a ter amado,
                                   de cujo rosto
nem um traço é possível trazer ao inventário,
mesmo com uma foto
se o homem a não houvesse
perdido no caminho:
exposta ao vento e à chuva, a foto,
lavada há muito, nada mostraria.

17

Tem um abeto, um pé de rosmaninho,
uma piteira cujas folhas do deserto
são espadas de gelo; tem a rua
que parte para o mundo e a igreja
vista do exterior, com raras sombras
que aos poucos vão morrendo e recompondo
a eternidade e o medo,
e ainda a cerejeira que pontua
a primavera, alegre porque
virtualmente a vida se renova
e porque o homem, constante,
aguarda que o planeta ultrapasse o equinócio
e o deixe recolher do sol os frutos,
doces mamilos, brincos de criança,
oh, tantas estações que se sucedem, lembra,
e as cerejas vermelhas sem ter fim.
Escuta-me, confessa à companheira,
a revolta daquele ser do mito
falhou redondamente, e não é por isso que
vou deixar de lhe ser fiel.
As cerejas suspensas neste inverno,
nesta manhã de sol gelado
enquanto os carros fogem para longe,
as cerejas pertencem-me também,
as que colhi dos ramos e aquelas por que espero
como gotas de luz do sol,
e talvez esse ser das ilhas,
cujos gritos se ouviam impotentes,
também soubesse o que é esperar,
afinal o motivo da revolta magnânima.
As cerejas que ainda não vieram
não as posso colher, eu sei, mas imagino-me,
como sempre, a apanhá-las da árvore.
Minhas são as que chegam, e por isso
a revolta do mito pertence ao inventário,
como hoje a cerejeira nua,
o pé de rosmaninho, o relógio de sala
que dentro de minutos
irá bater as onze da manhã.

18

As imagens esparsas seriam de um filme
se a lembrança das coisas reais
lhes não desse volume na memória.
E dessas imagens,
na montanha que viu romper a névoa
ao ir para o trabalho, há hoje
um sítio que buscou, perseguição
entre a ganga dos dias e a recusa
de a vida não poder vir a ser outra.
Este é o lado avesso do poema,
é fingir que se têm as palavras,
não do que se nomeia, real ou já perdido,
mas de enumerar gestos, rostos, bens
como árvores queridas longe do cansaço,
e também da revolta, a negação
do lado urbano escuro de que é feito
pelo amassar do tempo, ou seja,
a experiência que é preciso redimir,
tornar abstractamente depurada;
e dar tudo que não teve à montanha,
perto o rio, a pequena casa branca,
a mesa de verão sob a latada,
o pão, o vinho, a terra estendida ao sol,
os freixos e salgueiros ao longo da ribeira
e um gesto de ternura se assomasse
ao limiar do amor, o quarto de onde
pela janela visse como seu
aquilo que não teve e uns dedos lentamente
lhe escrevessem no corpo os nomes todos,
os nomes da montanha, esquecendo
os caminhos antigos,
quando era necessária a esperança.

19

Somemos os seus passos. Dessa soma
não retira nenhum caminho
ou mesmo utilidade. O que sobeja
é ainda o que está por caminhar,
e apenas desse modo justifica
a força necessária que as aves migratórias
investem na distância entre o horizonte
e o vértice do voo, a teimosia
de que o futuro está ao seu alcance,
e assim é-lhe possível transformar
em vagamente suas as paisagens,
os lugares estranhos por que espera,
um ser subitamente alado
                                 sem metafísica
que descobre entre as árvores
rios, rostos, cidades como nunca viu,
translúcidos e simples, brancos e solares,
distantes da abjecção dos dias
e da palavra escrita acerca desses dias.
As bétulas dos lagos, o mistério
das casas de madeira,
as janelas abertas para sul
e os seus olhos voltados a norte,
voltados para a aurora boreal
como se fosse o símbolo,
só vagamente o símbolo do deus
que sempre lhe faltou e que recusa,
e na mente imagina ainda
uma luz que pudesse solvê-lo homem
e transportá-lo além desse futuro.
Mas lembra-se do Sol, o deus selvagem
que se afundava no mar
em meio do vapor das nuvens,
frente às inumeráveis cidades costeiras.
A violência eterna e o caos
pertencem ao seu próprio sangue
medido por milésimos na imagem que recorda.
É esse o deus mortal que Galileu
lhe deixou por herança, números desolados
que se tornou tão fácil calcular.
Então, pensa, onde está esse futuro,
                                               o paraíso,
para quê falar nele?

20

Aquela cumeada antes medida
das pedras do mosteiro de Tarouca
por monges de Cister
como um limite
ou a imagem de um deus provavelmente
mais agreste que a de hoje,
há oito séculos
tão próxima, talvez, seria a morte
na fome que a cercava,
aquela cumeada, os dez pinheiros bravos,
o sol da tarde, as fragas, o azul
que é somente uma cor,
depois de repetido à exaustão,
quando enfim é igual ao amarelo
da casa nova a meia encosta,
rouxinóis do Varosa sem cantar,
as trutas sem subir as mesmas águas
e a flor do sabugueiro longe ainda,
somente porque o Inverno
às vezes permite ao homem
dias como este, plenos de Maio
que se anuncia e junta ao inventário
as promissórias breves da alegria,
contando como certos
os dias que hão-de vir
e tudo reviver no espanto dos seus olhos.

21

Glorifica o presente,
as imagens reais e aquelas
que adivinha à mesma hora:
hoje a cidade cheia de pessoas,
cidade tão antiga e conservadora,
no entanto povoada de árvores
onde o vento recorda o mar,
ruas que vão sorvendo o caminho do homem
e o casal que imagina sereno e sem tédio,
pleno de tempo, eterno vagamente,
olhando disponível nas vitrines
as enganosas cores deste século,
e em Genève, as galinhas-de-água sob a ponte,
gente no aeroporto com destinos
acolhedores e alegres,
tudo sucedendo ao mesmo tempo
no mundo e na cidade onde resiste,
enquanto o rosmaninho floresce no jardim
e lhe dá a certeza de que respirar
a luz do sol permite chamar suas,
inteiramente suas as coisas que vê
ou, seguro, estar certo de se darem.
Em Egina o assador de polvos, por exemplo,
continua a cuidar das brasas,
nas mesas os clientes almoçam sob o toldo,
e as bancas de pistácios esperam os bárbaros
que hão-de chegar de Atenas.
Não é necessário outra vez o ferry-boat,
nem voltar à janela bem amada
angustiadamente
para saber que tudo permanece ileso
e pode enumerar-se, a igreja, o sol que bate
nas paredes de cal, luz que envolve também
as ruínas do templo de Afaia
e os montes tão distantes entre si.


22

Não é sem alegria que pode olhar em volta,
mesmo nesta hora longa de inventários
virtualmente unidos num apenas,
atravessando o tempo construído
com paciência, verso a verso,
até exaurir quanto parece inesgotável.
A memória é um longo campo
com imagens tão díspares como a dos grous
lá no alto azul do céu com o seu V,
e a de um homem crivado de estilhaços,
entre árvores estranhas, sem saber
porque a vida se lhe ia com o sangue,
talvez fechando os olhos e selando o peito
com a palavra azar, sem nenhum deus
ou lugar que o remisse, bicho casual,
um homem que devia ter nascido
alguns anos depois para que
lhe sorrisse a fortuna, o carro, a casa,
a mulher que o esperava com os dois anéis,
a vida degradada e o país podre,
com certeza pequenos sinais usados
na prosa narrativa, evitando-se a mãe
que chorava em silêncio a sua morte,
isto é, o melodrama ― precisando:
o medo da verdade, arquétipo difícil.
E, no entanto, não é sem alegria
que pode olhar em volta de si mesmo,
por dentro de si mesmo, e concluir
vi coisas que ninguém mais viu,
as estrelas cadentes do Verão,
aquelas que riscavam certas noites
não mais hão-de voltar, não as estrelas
que semelhantemente atravessam o céu,
são meteoritos apenas,
mas as noites vividas como horas únicas,
não interessa qual a sensação,
sequer o sentimento que seguia
o traço luminoso e breve,
importa essa riqueza vária e vaga
que o homem acumula e escreve longamente,
ó doce solidão enumerável.

23

Pertencem-lhe as janelas de onde vê
o mundo digerido no seu peito.
Quando repousa, ganha nova força o olhar:
a luz revela os seres como são,
e as coisas, e o Universo inominado
além do ermo azul do céu:
como o alecrim floresce sob o abeto ali,
                                             enquanto
a mota passa na estrada, apagando-se,
rumo ao burgo antigo, tão alheio
que não pertence ao rol essencial,
                            lugar de exílio
e de lutas passadas, essas, sim,
do inútil inventário da revolta
que não sabe se algum dia reunirá;
e como ao longe, na outra janela, da sala
onde os lábios e as vozes se enternecem,
a duna lhe parece
levitar sobre o cume redondo de vento,
só porque a plenitude coíbe
de saber que são pedras esventradas
do outro lado da serra,
monstros silenciosos de aço, predadores
que o usufruir enfim da paz esquece;
e, tal aqui os cedros, ali a antena
que recolhe as conversas do satélite,
tornada de repente bela,
sem se ouvir que as palavras são moedas
sugadas para sítios ávidos
onde o poder e a ideia errada do amor se movem;
e a igreja de cal pura porque
assim é necessário parecer que seja,
por certo tinta de água que reverbera o sol,
se nada a essa vidraça chega
com as implicações perversas do real;
e então pode perder-se no oiro da laranjeira,
o melro ao longe nela, o bico imperceptível
cuja cor foi, no caos, buscar aos frutos,
e agora espera além no cocuruto
que o planeta se chegue mais ao Sol,
emissário que irá anunciar
a única eternidade, ano após ano.
Mesmo depois do seu tempo limite,
o homem sabe que o melro
virá à laranjeira, junto do equinócio,
e a paisagem, aqui e lá, torna-se unida
e com um só sentido mostra
que as janelas existem para nos medirmos
com os seres e as coisas e o Universo,
e o seu compartilhado entendimento.
Sem qualquer metafísica, pensa,
melhor, não pensa, se lhe basta a terra
e tudo quanto vê por dentro dele,
através das janelas, vidros
que a oxidação negava como a espelhos
quando era devastado pelo tempo.

© as musas esqueléticas

Publicado por mb em 11:40 PM | Comentários (33)

outubro 24, 2004

O Inverno

vai alongando os seus cristais de gelo
no interior das cepas,
metástase nas folhas corrompidas.
Mesmo as cores mais belas das videiras,
neste final de Outubro, não suscitam
qualquer mediação que vá
                                   incólume
do amarelo ao vermelho e à cor de vinho:
se me alegravam no ano que passou,
neste são só videiras numa vinha de Outono.
E recordo o brevíssimo sketch
que guardo na memória,
de quando fui a casa de Petrarca:
ele, velho, sem Laura, mesmo morta,
                                      e sem sonetos,
aquecia as mãos à lareira.
Na chaminé, por cima, os deuses do amor riam,
e lá fora, acrescento, imaginando,
as videiras distantes de um Outubro como este.

© as musas esqueléticas

Rascunho

23-24.10.2004

vai alargando os seus cristais de gelo escuro
no interior das cepas,
metástase nas folhas corrompidas.
Mesmo as cores mais belas das videiras,
neste final de Outubro, não suscitam
qualquer mediação que vá
                                     incólume
do amarelo ao vermelho e à cor de vinho:
se me alegravam no ano anterior que passou,
neste são só videiras numa vinha de Outono.
E recordo um o brevíssimo sketch
que filmei na memória, desde quando fui
a casa de Petrarca em Arquà:

que guardo na memória,
de quando fui a casa de Petrarca:

ele, velho, sem Laura, sequer a mesmo
morta,
                                      e sem sonetos,
aquecendo aquecia as mãos à lareira.
Na chaminé, por cima, os deuses do amor e, lá fora, riam,
acrescento, as videiras que dizia.
e lá fora, acrescento, imaginando,
as videiras distantes de um Outubro como este.

Publicado por mb em 02:59 PM | Comentários (7)

outubro 23, 2004

Felipe Benítez Reyes

*   *   *   *   *   *

A INCOERÊNCIA DO QUOTIDIANO

Relógios digitais como luas geladas,
câmaras fotográficas e de vídeo
com o aspecto impecável de amuletos,
televisores que reflectem
imagens de doentes, de atletas, de assassinos
― e esse charco de sangue em grande plano ―;

ante ofertas de pilhas de longa duração,
ante montões
de rolos de película que irão eternizar
a viagem às ilhas, o olhar de algum menino
ou o furtivo nu de uma mulher que dorme;

ante o escaparate dos distantes prodígios,
súbito, pelo acaso de analogias,
há um homem que vê
no fluxo da memória, episódios
de névoa confundidos
em corpos e em objectos que recobrem
um passeio sem fim,
ao fundo da vidraça que o reflecte.

E vê nessa vidraça imagens imprecisas
de automóveis que passam, de uma jovem que passa,
a intermitência de um néon e os diligentes
transeuntes que fogem sob a chuva:
sombra na própria sombra repetida;
e olha para os relógios,
o altivo mecanismo com desconto
de vinte e tal por cento, e prossegue o seu rumo,
já outro curioso se detém a fitar
relógios digitais, e câmaras de vídeo, e o reflexo
do seu próprio mirar-se na vidraça,
e acerta no relógio a hora exacta,
para seguir depois
o seu caminho, quando a chuva cessa,
com sapatos molhados e chapéu-de-chuva,
por uma rua comercial cada vez mais deserta.

INCOHERENCIA DE LO COTIDIANO

Relojes digitales, como lunas heladas,
cámaras fotográficas y de vídeo
con su impecable aspecto de amuletos,
televisores que reflejan
imágenes de enfermos, de atletas, de asesinos
― y ese charco de sangre en primer plano ―;

ante ofertas de pilas de larga duración,
ante montones
de carretes de fotos que habrán de eternizar
el viaje a las islas, Ia mirada de un niño
o el desnudo furtivo de una mujer dormida;

ante el escaparate de los fríos prodigios,
de pronto, por el azar de las analogías,
hay un hombre que ve
Ia sucesión de su memoria, episodios
de niebla confundidos
en cuerpos y en objetos que recubren
un pasillo sin fin,
ai fondo del cristal que le refleja.

Y ve en ese cristal imágenes borrosas
de unos coches que pasan, de una joven que pasa,
la intermitencia de un neón, los diligentes
transeúntes que escapan de la lluvia:
sombra en su propia sombra repetida;
y observa los relojes,
la altiva maquinaria rebajada
en un 20 %, Y prosigue su rombo
mientras otro curioso se detiene a mirar
relojes digitales, y cámaras de vídeo, y el reflejo
de su propia mirada en el cristal,
y pone en hora exacta su reloj,
para seguir después,
cuando la lluvia cesa, su camino,
con zapatos mojados y paraguas,
por una calle comercial cada vez más desierta.

Publicado por mb em 10:12 AM | Comentários (0)

outubro 18, 2004

(Em construção e organização)

INVENTÁRIO

        "Caminante, son tus huellas"
        António Machado


Um dia, sem tristeza ou alegria,
esta enumeração
há-de ser uma conta de somar
com um fim parecido ao da
registadora
que acumula durante o dia
pessoas num café,
sem ninguém entender depois
que contas afinal eram aquelas,
ficando a ideia ambígua
de vidas que perpassam,
tão emaranhado é o mapa
das cidades ocultas
na lembrança, essa abóbada
de imagens imprecisas
que lentamente
vão caindo em silêncio e se apagando.


PRIMEIRA CONJUGAÇÃO


1

Não é sem alegria que pode olhar em volta,
mesmo nesta hora longa de inventários
virtualmente unidos num apenas,
atravessando o tempo construído
com paciência, verso a verso,
até exaurir o que parece parece inexaurível.
A memória é um largo campo
com imagens tão díspares como a dos grous
lá no alto azul do céu
e a de um homem crivado de estilhaços
na selva, sem saber
porque a vida se lhe ia com o sangue,
talvez fechando os olhos e selando o peito
com a palavra azar, sem nenhum deus
ou lugar que o remisse, bicho casual,
homem que deveria ter nascido
alguns anos depois para que
lhe sorrisse a fortuna, o carro, a casa,
a mulher que o esperava com os dois anéis,
a vida degradada e o país podre,
com certeza pequenos sinais usados
em prosa de ficção, evitando-se a mãe
que chorava em silêncio a sua morte,
isto é, o melodrama ― precisando:
o medo da verdade, arquétipo difícil.
E no entanto não é sem alegria
que pode olhar em volta de si mesmo,
por dentro de si mesmo, e concluir
vi coisas que ninguém mais viu,
as estrelas cadentes do Verão,
aquelas que riscavam certas noites
e nunca mais trão voltar,
não as estrelas
que atravessam o céu como antes,
são meteoritos apenas,
mas as noites vividas, horas únicas,
não interessa qual a sensação,
sequer os sentimentos que seguiam
o traço luminoso e breve,
interessa a riqueza vária e vaga
que o homem acumula e escreve longamente,
ó doce solidão enumerável.


2

A nascente do rio é uma abstracção
mais vasta que a memória.
As águas descem rumo à foz
e sobem, pelas nuvens, à nascente,
infinitos milhares de anos antes
de o homem dizer este é
o rio que me flui nas veias
―flui num postal, está a imaginá-lo
como o seu próprio sangue,
no conforto de haver um tempo
depois da morte não havendo.
O rio corre apenas, mera especulação,
e no entanto real para os que hão-de passar
na margem da Foz Velha depois dele,
juntando na lembrança coisas enumeráveis:
a pesca à linha, o voo dos picanços,
o grito das gaivotas misturado
ao rumor da água, voz do tempo
nas barcaças da areia naufragadas
e já desfeitas, de uma outra era
anterior à sua, símbolos
que anularam uma idade,
estratos sobre estratos de enumerações,
as tias, e antes dessas tias, outras
de outros homens iguais,
só aparentemente vários
na captação de imagens com que a luz
fere a retina e dá cor própria
aos Pilotos, aos barcos, às janelas
que verberam o sol,
só aparentemente vários
e realmente diversos no momento
em que enumeram,
gravando a sua voz nas águas.
"Eu vi multiplicarem-se as casas",
diz o homem,
"as ruas, os amigos, os cinemas,
os jogos de bilhar no café Diu."
E amou Rosário e Gi até os seus quinze anos,
altura em que saiu sozinho da cidade,
deixando atrás de si ruínas,
a casa tão antiga destruída,
para vir a ser mais tarde o que é hoje:
uma casual soma de palavras,
um inventário anónimo em sua relação.

3

Não poderá dizer que tenha uma cidade
inteiramente sua.
Não viu florir as árvores que plantou
ao longo dos passeios,
e o riso dos miúdos hoje só ecoa.
De todas as cidades juntou símbolos
que viriam a dar nomes a nomes
e patine ao exílio permanente,
a foz do rio, a voz de António Nobre,
a sul o casario branco de mil anos,
e ao longe a ilha que enfrenta o mar
em risco de naufrágio como Antero,
a casa dos avós comida pelas heras
e por um oceano de silêncio
que versos devoravam e que herdou.
Oxalá diga de alguma terra ―
este é o meu país
de colinas e pinhos mansos onde
imaginariamente se transforma em doce
a experiência dura de lembranças,
as cidades e os rostos desertos do amor,
e mesmo aquele burgo antigo entre montanhas
onde era proibido ser vermelho
e onde o clero saía à rua
em seus pálios escuros,
a cruz como um punhal à cinta,
as hordas de fiéis prontas para a fogueira
de relapsos e gritos.
E no entanto como é lento o inventário,
que longas lhe parecem as cidades
depois de percorridas,
como demora a ver a terra
de colinas e pinhos mansos
e gestos que diluem
o cansaço de praças como fotos
e de ruas vazias sem presente,
o mero enumerar em que persiste.

4

Quando se reuniram ao longo de uma mesa
e os sentiu incapazes de entender
a raiva subjacente
no animal que move a guerra
e faz de bocas secas vivo sangue,
o que trazia em si, o esquecimento
correndo-lhe em silêncio na medula,
depressa se soltou,
golfada na dureza lítica de olhar
os seus rostos estranhos de distância
e do tempo centrífugo
e aquele restaurante com preços modestos,
a comida a contento deles quase todos,
a maioria que hoje ainda
atravessa o Tirreno nas galés,
remando, oblíqua, sobre a sorte
que em tudo é como outrora o deus,
já a História era o rio deles que secara.
Desde então somaria ao inventário,
à memória ferida,
o país junto ao longe em terras e soldados
que tinham vindo e logo queriam partir,
vivendo de lembranças
trazidas num Dakota em cartas
nunca soube com que letra,
dantes não meditava
na rude condição dos cérebros,
talvez sentisse apenas no interior dos crânios
o vagaroso passo dos bois e o chiar
dos carros de ficção provinciana
que o ditador impunha à sua opereta
e cujo argumento era, oculto,
o fim da História Trágico-Marítima,
escondendo os naufrágios e louvando
campos de milho e vinhas de suor,
miséria, camuflados do destino,
que no homem suprimira a tentação
de fugir e saber
o mundo da revolta, de enfrentar
o estrépito das armas, sons
cavos de instrumentos de uma orquestra
que ninguém desejava ouvir,
cujos decibéis eram agudos estiletes
e bigornas de um céu que trovejava,
mudando actores de écloga
em desvairados gritos de histeria,
de choro e medo, a boca escancarada,
a confusão, o ranho, Deus que lhes fugia,
os insultos que os outros não ouviam,
as mães que não chegavam,
o cavo martelar da morte,
e os mortos um por um marcando o tempo
que no homem sobrevivo mais tarde haveriam
de tornar-se uma sombra
e todas as crianças e mulheres de África
que andaram atrás dele,
trânsfugas, fuziladas talvez no silêncio
aberto quando as armas se calaram.
E os filhos que depois nasceram sem saber
as marcas do passado e a inexplicada paz,
como se fossem árvores seguras,
como se fossem simples protectores
de ouvidos descentrados,
como se não tivessem de pensar
um dia, como ele hoje no inventário,
a remissão que nada purifica,
e não sejam a sua própria incógnita,
e não venham a ser os passos devorados.

5

Um homem, um olhar, um teclado,
as estantes, os livros, o escritório,
uma janela a leste, uma outra a sul,
o mapa das estradas percorridas
na Europa mitológica e melancólica,
marcadas por amor à aventura;
a estátua de Posídon que comprou
numa loja do bairro de Plaka;
quadros de Gargaleiro trocados
por coisas comezinhas em Quiaios;
a execução de Sir Thomas More
numa feira da ladra há muito;
o retrato naïf da irmã,
pintou-lho o namorado,
ambos já estão mortos, sobrevivendo algures;
o auto-retrato de um pintor que não existe,
herdado de lembranças e revolta
que ainda permanecem como lume:
atravessam de súbito o escritório,
relâmpagos vermelho-escuros,
uma luz no seu lado inverso, interior,
rasgada como sangue espesso,
as trevas
de onde nasce o sol cálido
que sustenta lá fora
o abeto, o cipreste, os cedros,
a palmeira no exílio,
o buxo do jardim antigo
como um passado
que renegou:
lembra-se de uma flor heráldica
e nomes que diziam com orgulho,
donatários de el-rei, a grande casa,
os vivos orgulhosos dos seus mortos
sem saber o que foram,
já os olhos se perdem na folhagem,
na luz verde de um deus pagão, as árvores.
E em cada anoitecer
autocarros pejados de homens e mulheres,
vão da janela sul para a de leste,
são um tempo de seres sem destino,
presente sucessivo
sem futuro e nenhuma eternidade.

6

Quem pode enumerar o inumerável,
o que se sente atrás das coisas?
O mesmo é dizer no homem,
algures para lá
da fronteira onde o caos determinou
ser a memória um cílio sensitivo.
E no entanto sozinho na cidade,
a ouvir o rasto líquido dos pneus
no asfalto, à chuva, e os carros em suas longas rotas,
nem sequer se dá conta
de que o tédio talvez seja a soma
do inumerável junto,
a forma de sentir a densidade
do presente, esse tempo variável
conforme for passado
ou viver hoje o riso
que não enumerou.
O riso não se prende ou se acumula
como os quadros de Uranga, o basco,
uma vinha, uma praia, e Paris a chover,
tapas e txakoli, preços discutidos
numa tasca de cheiros diferentes,
onde iam proletários pós-modernos,
com jeans e blusões de cabedal.
E o homem rememora
a alegria dos filhos em Zarautz,
o esquilo coreano que trouxeram,
a praça do coreto, a música à noite,
uma sopa de peixe, dois restaurantes caros,
o chocolate e churros no passeio marítimo,
a praia cuja areia o mar galgava
e a corrente do Golfo, morna,
tudo isto não existe nos quadros,
e no entanto é possível não sair
do escritório e juntar imagens
ao inventário,
embora meramente virtuais.

7

Trouxera-lhe um jagunço da Bahia,
que dia e noite, mês após mês,
vigia da janela sul há anos
o perpétuo fluir dos carros,
os olhos do escultor naïf
talhados na madeira, o seu exílio.
E que sorridente ela sobraçava a estátua,
um ar de aeroporto
nos olhos verdes, sol e vento,
e o espanto do troféu enorme.
Não pode dividir a imagem desse instante,
não pode enumerar o chapéu de palha,
o rosto do jagunço, o nariz aquilino,
o cachimbo, a camisa pobre, os pés descalços,
e que daí renasça a luz alegre
naqueles olhos verdes que brilhavam.
Nem as sardas do rosto,
nem bonecas, nem fotos de verão.
Quando partiu levou com ela
o tempo indivisível de outra infância,
e, de um quarto vazio,
o espelho onde crescera,
os posters, a cama alta,
o armário, a escrivaninha de segredo,
em nada já lhe serve enumerá-los.

8

E a assinatura?
Quem foi Francisco Afonso? Vai-se o nome,
tão-só a vida anseia a luz do traço
no retrato do pai
que acreditava, assim seguro,
o tempo não passar ainda
aos quarenta e quatro anos.
Talvez vivesse só para o prazer,
lembra-se agora,
ao ver-lhe os lábios um pouco grossos
e refinadamente lúbricos
que permitem somente enumerar
os pássaros que tinha aprisionados,
a horta de coisas raras,
os bonsais, as fruteiras,
os espessos romances, a poesia
e o vulto de poetas que chegavam,
a música nos discos de vinil,
orquestras e corais
por dentro do seu sangue transmitido,
lembranças incompletas
ou que se ocultam,
e invadem o dia-a-dia, casuais.

9

Quando a noite em redor isola os seres,
as janelas votadas ao silêncio,
o homem convoca os rostos do passado
e testemunha que
vírus insidiosos infectaram muitos deles
até lhes apagar os traços
e tornarem-se manchas
sem o sopro vital que anima
às vezes os retratos.
Os vivos que partiram, decididos
a abandonar o bairro onde, com ele,
partilharam o início,
tornaram-se na massa informe
que se não soma, esparsa relação de nomes,
experiência vã, arenoso fastio,
vagamente traição não se sabe de quem
ou mágoa de se terem mudado em
perfis de indiferença hostil.
No inventário de ausentes,
resistem na memória os mortos
como ausentes também, mas vivem
e dão-lhe densidade,
mortos ou sobrevivos respirando algures,
o amigo que se foi
de repente num fim de primavera,
já lhe tinha ensinado os segredos da infância,
ninhos, nomes de pássaros, o rio,
e depois para sempre aquele tempo
como um eco de luz nas águas;
o seu primeiro nome feminino
murmurado e nocturno de erecções sucessivas,
a fonte germinal da angústia,
a longa aprendizagem do sémen
e o pecado que os deuses da noite interpunham;
o começo da grande caminhada
que todos vai moldando;
os professores, donos de palavras
que mais tarde usaria longamente;
o comboio do exílio na manhã submersa;
o barqueiro que ainda surge
dos vagalhões do mar, perdido o bote,
e o passava para a outra margem ―
o Cabedelo que Ulisses não pisou
por ser do sol, gaivotas, peixes, e contudo
as tias que morreram ali perto,
e a mãe, a areia, a foz do rio, a névoa.

10

Não é a mesma coisa que viver, reunir
numa sala deserta as tias que partiram,
sentadas em cadeiras de braços como dantes,
alegres em redor da mesa
com uma dessas toalhas de chá e linho.
Os pães de leite, os doces, as torradas,
o bule chinês, as chávenas casca de ovo,
o rosto tão fugaz da mãe,
cena filmada a preto e branco
por Buñuel e Orson Welles ao mesmo tempo.
O homem admite ser possível desse modo
dar vida à sua própria vida recriada
sobre coisas e seres que ao longo dos anos
se foram transformando;
dar vida, embora falsa, a imagens apagadas,
construindo com elas as horas do balanço.
Mas se todos escrevem no espelho dos rios,
mover-se-á somente
como num filme antigo, a imitação do tempo
enquanto na memória o filme for passando.
Talvez devesse, pensa ainda,
ir junto dos irmãos, não à procura
da clemência de Deus que eles um dia
hão-de rogar, não sabe,
ou cerrarem fileiras à morte do passado,
no meio da alegria apócrifa
de estarem juntos ao redor
de uma mesa real ― há quanto não se vêem.
Se fosse junto deles, levaria o filme
de Buñuel e Orson Welles,
e falava "entrem nessa sala e vejam
quem se senta em redor da mesa
e de quem é o rosto tão fugaz."
Haviam de dizer não se vê nada,
deve ter-se estragado o filme. Só se vê
um carrinho de esferas como os teus que tinhas
e atrás lê-se a palavra “Rosebud”.

11

Lembra-se de uma foto, a mãe com ar antigo
sustentando-o no colo, a alegria serena
do seu terceiro filho, algures na ilha estranha,
e ao lembrar essa foto que não tem,
que o viver tão vãmente de cidade em cidade
havia de apagar ou, mais provavelmente,
de perder-se nalgum cais de comboio,
ao lembrar essa foto umbilical
medita em quanto a morte é sem regresso,
como pôde deixar nos olhos
um filtro fotográfico que, enevoando a luz,
o obrigou a voltar-se para dentro
da acepção das palavras devoradas
em livros onde a vida é imitada
ou a beleza é trocada pela vida.
Cedo sentiu Mersault, Hamlet, Cassandra
instilarem a sombra no seu sangue
e nascer entretanto a ânsia de salvação
da velha antologia de Bandeira:
Teus pés tapo voluptuosos: é por isso
que andas com tanta graça, Ó Cassiopéia!
”,
mergulhando e subindo à superfície
do vórtice de imagens virtuais,
com rostos do real, com caminhos, com casas,
a presença do corpo em tudo, preparando
o tempo de balanço que havia de chegar,
como há-de chegar o outro,
como veio o da mãe, não sobrando sequer
para o homem essa foto, de mistura
somente na memória com imagens
que nem sequer existem
como lembranças,
são só recriações de quem chegou
a um lugar, nada tendo e tendo tudo,
vagaroso inventário
de coisas que sabia e lhe faltavam,
mesmo aquele momento
em que viu a mulher chorando alguém
na relva verdejante, sobre um número do
cemitério nazi de la Cambe,
sessenta anos depois do Dia D,
mesmo esse casual momento
o enumera, ao lembrar-se de uma outra necrópole,
rodeada de prédios e de carros,
do barulho de eléctricos e das floristas
que anunciam crisântemos de plástico,
onde não sabe o túmulo da mãe
porque ninguém lho disse,
porque nenhum dos rostos vivos o ensinaram,
porque, depois de adultas, as crianças
são sempre inimputáveis
e enquanto não crescerem
não podem conhecer a morte.

12

Do amor recolhe os rostos um por um,
na lenta ascendência ao presente
e deles despojado. Não são muitos,
e mais, já não existem. O que existe
é a tevê vulgar, os pratos de marisco,
o almoço especial de festa,
a luz do sol que passa os cortinados
e lembra o maremoto surgido do não tempo
ao tempo fraccionado dos homens pela morte.
Daqui a anos ninguém lerá
a data incrivelmente aritmética:
é o primeiro dia de 2005.
Sentado à mesa, escreve,
e o corpo que se dava à carne túmida
não é mais do que a imagem virtual
de gestos amorosos apagados,
jardim público a sul onde as gardénias
estavam sempre a mais
por não serem precisas ao amor,
por nenhum as olhar
do banco de travessas verdes entre buxos,
e se hoje as convoca é para que haja um sentido,
ou verdade aparente.
Não se podem reter gestos do amor
suspensos na memória sem sentir
o enjoo do vazio.
As flores que vieram depois,
as flores dos jardins e da lembrança
que enfeitariam hoje a sua face
entre árvores e arbustos camarários,
sem odores simbólicos,
essas vivem por si somente:
falo de flores,
num rol subentendido de alegria,
que enquadrassem os olhos dela,
aquela que ele diz primeira a ter amado,
de cujo rosto
nem um traço é possível trazer ao inventário,
mesmo com uma foto
se o homem a não houvesse
perdido no caminho:
exposta ao vento e à chuva, a foto,
lavada há muito, nada mostraria.

13

Se um dia der por findo enumerar
o que é passado,
o homem não terá dito tudo:
ficam lacunas, brilhos, súbitas lembranças
que num ápice vão como voltaram
para onde o caos
fez do peito um abrigo de inquietas
vibrações, cílios cegos e matéria
de feixes luminosos
ou inquietações escuras.
Toda essa massa informe
respira lentamente em letargia,
e dela às vezes surgem fotos
tremidas pelo tempo:
a infância e a adolescência nas
ruas do esquecimento
por onde vagamente caminhava;
os rostos femininos
que permanecem virgens em seu corpo
e que não foi capaz de resguardar
e livrá-los da massa anónima:
desperta-os quando calha,
tão fugazes no vento que se apagam
sem notícia nenhuma,
de regresso ao seu sono de anos;
e mais tarde
também os sítios e a gente que somou,
mal reparando agora neles
e olvidando que foram vida,
contudo acrescentando-se
de imagens e seres que não pode
enumerar. E se hoje
são apenas um lastro de palavras
e fotos esquecidas,
toda essa massa anónima, que vive
lentamente em seu sono, pelo menos
gerou o tom e a luz
de um abajur aceso
nas folhas do inventário já passadas.

SEGUNDA CONJUGAÇÃO

1

Não se deixam pegadas nos caminhos
e deles o que resta é a chegada,
e sabe que as chegadas um dia vão cessar.
Mas enquanto durar o sol nos vidros,
a casa devoluta, o abeto, o rosmaninho,
a piteira agressiva, ser do caos
que gera no seu cálice tigres extintos ―
enquanto o azul do céu durar
sobre a manhã,
cada dia é sempre uma chegada,
e o homem vê na aguarela
a casbah de Essauira
onde sonhou viver
para todo o seu sempre, que era tudo
quanto tinha na vida para dar
em troca do silêncio
no interior da voz do mar,
o mar que havia lido em Azurara,
e os pescadores, os barcos, as tabernas escuras,
cheias de antigos mouros em bancos corridos,
a ver televisão
nas caravelas,
branca Lagos da História que não sabem,
e a praça com palmeiras, e o thé à la menthe,
uma mesa, a esplanada, um livro,
o presente lavado de memória
e da esperança vã desnecessária.

2

Se não fosse Dezembro saberia
enumerar os pássaros,
assim não há ninguém, com este frio,
que se lembre de pássaros e campos,
hoje blocos de prédios,
de pisos sucessivos
e quartos sobrepostos onde grita o esperma.
Imagine-se então, na falta de repouso,
o que era de repente
as paredes dos quartos se arrasarem
e casais, ignorando-se uns aos outros,
encherem um deserto como estivessem,
nus ou meio despidos,
sem as camas, na areia, bombeando
a subida dos líquidos caóticos.
Que visão, essa do homem,
o percorre e reduz. Somente
falta o cameraman para provar
que é apócrifa a ideia solidária
que tem da humanidade e passe a ser
o que dela sobeja,
uma tribo de rostos de criança,
de gente no café que fala,
de amigos e de seres que sabia
terem sido a família no silêncio;
e também as imagens destroçadas
dos mortos pela guerra,
o permanente estado de ira,
os dias que faltavam para a paz
e hoje a melancolia
de não poder saber onde estará
aquela gente toda em debandada,
parte da humanidade que foi sua,
territórios marcados todos eles
pela urina de cães selvagens
aonde ninguém mais há-de voltar.

3

Como pode contar-se o que não se possui,
como pode fazer parte de um rol
o que não existe e é inventariável,
como enumerar lenta e meditadamente
a espécie de falhanço que é não alcançar
o inalcançado?
E no entanto o sol que entra pelos vidros,
o sol desta manhã tão nova,
ilumina-lhe e aquece a secretária
como coisa real,
o agrafador, um porco sem moedas,
uma lata com lápis e esferográficas,
o livro de Zurara, o de Camões,
o de Ricardo Reis, um de Sena,
juntaram-se ali todos,
objectos irreais, os livros.
Só quando os abre, escuta:
No mundo poucos anos, e cansados,
Vivi, cheios de vil miséria dura
”,
e imagina como era a vida deles,
ferozmente concêntrica,
em busca do que não existe,
e cada vez mais longe de saber-se
aquilo que buscavam. O homem, esse
queria o campo, o silêncio.
Sem pensar, gostaria às vezes
de que as palavras fossem
o corpo, um pequeno cofre, cinzas
sob a lira do vento, as árvores.
Recordava Welles em Ronda,
eu sei, eu sinto, eu vejo como o vento” ―
sem pensar, porque os mortos
são ideia dos vivos, e a ele enfim
o que interessa é os campos
que olha ao passar no carro,
uma casa de sol e cal, galinhas,
meia dúzia de cabras, cão e gato,
um corvo como os da raia,
os livros e os CDs
depois de uma triagem rigorosa,
e todos os quadros:
talvez, numa manhã de sol como esta,
a luz abrisse o livro de Reis, e escutasse:
É tão suave a fuga deste dia,
Lídia, que não parece que vivemos.

Quem sabe? meditando nestes versos,
também dela pudesse enumerar os traços,
mas só da sua imagem, não de Lídia,
que vive à beira rio e viva prevalece.

4

A enumeração é um acto variável
e tão heterogéneo
que ninguém poderá fazer
o inventário total de bens
e marcas que carrega. O homem
pensa na inesgotável fonte de desejo
como sonho que nunca se exauriu
e, mais que bens e marcas e lembranças,
é o que, presente e mais alto, o povoa,
enumerações líricas há muito suas,
recolhidas em anos de carência.
Não imagina se todos saberão
das ruas e cidades
que se tornou preciso abandonar,
imagens de um passado quase alheio
em frente do diálogo
tão diverso daqueles que tivera,
o modo de dizer certas palavras
em cujos lábios segue
o feminino cálido de se moverem,
a forma de estar dentro de outras
que se adivinham
antes de escritas,
o silêncio das coisas partilhadas,
o perfume florido, o afago leve,
os pequenos objectos da realidade,
a cadeira, a faúlha fria
que sujou a almofada,
as maçãs biológicas de uma árvore
ingénua abandonada,
o livro de E. Lourenço sublinhado,
cujos traços de lápis o homem
seguia velozmente
como se a seguisse a ela,
raios de luz direitos
ao lado interior do pensamento,
onde o calor da pele se funde
no presente tão real
que só nele é possível respirar.

5

Pertencem-lhe as janelas de onde vê
o mundo digerido no seu peito.
Quando repousa, ganha nova força o olhar:
a luz revela os seres como são,
e as coisas, e o Universo inominado
além do ermo azul do céu:
como o alecrim floresce sob o abeto ali,
enquanto
a mota passa na estrada, apagando-se,
rumo ao burgo antigo, tão alheio
que não pertence ao rol essencial,
lugar de exílio
e de lutas passadas, essas, sim,
do inútil inventário da revolta
que não sabe se algum dia reunirá;
e como ao longe, na outra janela, da sala
onde os lábios e as vozes se enternecem,
a duna lhe parece
flutuar sobre o cume redondo de vento,
só porque a plenitude coíbe
de saber que são pedras esventradas
do outro lado da serra,
monstros silenciosos de aço, predadores
que usufruir enfim da paz esquece;
e, tal aqui os cedros, ali a antena
que recolhe as conversas do satélite,
tornada de repente bela,
sem se ouvir as palavras são moedas
sugadas para sítios ávidos
onde o poder e a ideia errada do amor se movem;
e a igreja de cal pura porque
assim é necessário parecer ,
decerto tinta de água que reverbera o sol,
se nada a essa vidraça chega
com as implicações perversas do real;
e então pode perder-se no oiro da laranjeira,
o melro ao longe nela, o bico imperceptível
cuja cor foi, no caos, buscar aos frutos,
e agora espera além no cocuruto
que o planeta se chegue mais ao Sol,
emissário que irá anunciar
a única eternidade, ano após ano.
Mesmo depois do seu tempo limite,
o homem sabe que o melro
virá à laranjeira, junto do equinócio,
e a paisagem, aqui e lá, torna-se unida
e com um só sentido mostra
que as janelas existem para nos medirmos
com os seres e as coisas e o Universo,
e o seu compartilhado entendimento.
Sem qualquer metafísica, pensa,
melhor, nem sequer pensa, se lhe basta a terra
e tudo quanto vê por dentro dele,
através das janelas, vidros
que a oxidação negava como a espelhos
de prata inviolável face ao tempo.

6

Chama de novo a sua face
ao inventário, agora que o retoma
sem nenhuma vontade
de ser sentimental
e de usar verbos gastos
que não mereceriam,
vocábulos
sem o brilho de serem a palavra
lustral
que os renasceu do tempo.
Se a enumeração era em si já longa,
mais longa se tornou
em cada pormenor, de súbito
com outra luz, o mundo com sentido
se visto da janela,
e também com revolta, se pensado
em fóruns sem ninguém
ou somente com vultos muito antigos,
inofensivos,
que não importam às secretas
nem a telejornais, só a eles.
Morreremos de pé, afirmam, vivos
porque talvez o mundo se renove
com essa outra luz
que ressuscita as coisas da paisagem
olhada da janela,
não como dantes, meros adereços
entre que iam, a rua, as pedras, mesmo as árvores
a que o vento trazia a voz do mar distante
como o passado
que evocavam em dias pardos,
em tardes sucessivas
de manhãs igualmente pardas sem remédio.
Oh, o inventário agora tão extenso
e tão longe do exílio.
Não sabe se algum dia o acabará,
e não quer recordar
que inventários assim ninguém os terminou
sem baixar primeiro às trilhas do Inferno,
sozinho, sem Virgílio, remoendo
as razões de Dante, e outro paraíso.

7

Paredes de escritório como aquelas,
estéreis de alumínio
e madeira prensada a fingir mogno,
parece nunca o terem rodeado,
e no entanto gastou parte da vida entre elas
a dar-se-lhes de um modo cego,
a confiar no tempo como
se os pássaros que um dia vira,
livres como metáforas de beleza,
os tivesse esquecido para sempre
e não voltassem mais.
Por isso
nada ali se enumera com sentido,
móveis de superfícies nuas,
a mesa circular onde reúne
para falar de tudo menos de arte,
as cadeiras vazias em redor,
sem nada pessoal a secretária,
balancetes em montes geométricos,
palavras de algarismos,
o ar condicionado que ronrona.
Não há ali volume do passado
ou futuro viável, ó lembrança doce,
há um presente estranho
que resiste arquivado em pastas.
O homem recorda as coisas
que o levarão de volta, ao fim do dia.
Nada de novo vão trazer-lhe.
Talvez lhe baste
o que o acompanha:
as notícias na TSF, a Antena 2,
a imagem de um sorriso, e logo
as giestas transidas
nos faróis do carro e,
no vidro ao lado,
o planalto e as aldeias que flutuam
para lá do seu tempo,
o tempo tão alheio das estrelas,
e enfim a ideia em si sentida
do que é não haver esperança:
paredes como aquelas
onde ninguém escreve um grito.

8

No cenário disperso onde seria
viável respirar, como se o acaso
fosse diferente, e não o deus
que nos escravizou ao livre-arbítrio,
o fado de ter sido assim
e não de outra maneira,
por haver tropeçado numa qualquer esquina,
a que somente o tédio, o desejo ou
a insciência conduziram —
No cenário disperso onde seria
possível respirar,
o homem mede a distância do não tido
ao que hoje não terá, sozinho, sem o rosto
que por vezes esconde o seu no peito.
Sucede raramente não saber o caminho
cheio de sem-razões, olhar, sintoma
a que é normal cega gente
chamar loucura, gente em cujos olhos
brilham moedas de oiro
e que move o escritório estranho ao homem,
sem que nada ali possa libertá-lo
ou mesmo pertencer a um inventário.
Se fosse enumerar as árvores, as casas,
as estradas e os montes nas vidraças,
e esta gente entre quatro muros
que finge resistir e de nada suspeita
— há-de surpreendê-la a morte
no espanto de não ter sabido
que já vivera —,
se fosse enumerar o que a vista abrange,
retiraria ao rol quanto enumerasse,
tão hostil e vazio se torna o cenário
quando lança em redor os olhos
em busca de memória, e nada lhe pertence,
e quer sair dos números,
das pastas e balanços, dos
computadores cegos ligados entre si
e entre ninguém,
do gabinete cheio de janelas
de que não há quem deixe escrito:
eram umbrais por onde a luz do rio entrava.

9

Tem um abeto, um pé de rosmaninho,
uma piteira cujas folhas do deserto
são espadas de gelo; tem a rua
que parte para o mundo e a igreja
vista do exterior, com raras sombras
que devagar vão morrendo e recompondo
a eternidade e o medo,
e ainda a cerejeira que pontua
a primavera, alegre porque
virtualmente a vida se renova
e porque o homem, constante,
aguarda que o planeta ultrapasse o equinócio
e deixe recolher do sol os frutos,
os brincos de criança.
"Oh, tantas estações
e as cerejas vermelhas sem ter fim.
Escuta-me", confessa,
"a revolta daquele ser do mito
falhou redondamente, e não é por isso que
vou deixar de lhe ser fiel.
As cerejas suspensas neste inverno,
nesta manhã de sol gelado
enquanto os carros fogem para longe,
as cerejas pertencem-me também,
as que colhi dos ramos
e aquelas por que espero
como gotas de luz do sol,
e talvez esse ser das ilhas,
cujos gritos se ouviam impotentes,
também soubesse o que é esperar,
afinal o motivo da revolta magnânima.
As cerejas que ainda não vieram
não as posso colher, mas imagino-me,
como sempre, a apanhá-las da árvore."
Dele são as que chegam, e por isso
a revolta do mito pertence ao inventário,
como hoje a cerejeira nua,
o pé de rosmaninho, o relógio de sala
que irá bater as onze da manhã.

10

Também relaciona
onze volumes grossos de palavras
alinhadas por ordem alfabética
com que cedo ensaiou uma outra utilidade,
precisão imprecisa, a música,
e o estilete exacto
que aspira ao corte seco dos vocábulos
como se fossem números
de uma conta bancária com saldo inesperado.
Talvez seja essa parte
que mais ciosamente guarda,
os cinco dicionários numa estante
onde devagar vão morrendo,
à espera desse dia que não há-de ver,
quando todos tiverem enjeitado
a anacrónica língua em que escrevia
os sons amor, mãe, mar, amorosamente
redondos de vogais na boca e consoantes,
e tanto repetidos
que ainda era possível defender
as fronteiras das hordas atonais
que já se levantaram a ocidente.
Os volumes perfilam-se na estante,
futuras caixas negras
que guardam para os clones
e suas fonotecas
a chave das palavras ce-dro, nu-vem,
o pôr-do-sol li-lás naquela tarde.
Raramente lhes toca, e quando os olhos
por eles se distraem
sabe que lhe pertencem as palavras,
avara relação que pensa não ceder,
contudo
aos poucos transformada noutras bocas.

11

Aquela cumeada antes medida
das pedras do mosteiro de Tarouca
por monges de Cister, o seu limite
ou a imagem de um deus provavelmente
mais agreste que a de hoje,
há oito séculos
tão próxima seria a morte
na fome que a chamava,
aquela cumeada, os dez pinheiros bravos,
o sol da tarde, as fragas, o azul
que é somente uma cor,
depois de repetido à exaustão
em poesia má ou de outro tempo,
quando enfim é igual ao amarelo
da casa nova a meia encosta,
rouxinóis do Varosa sem cantar,
as trutas sem subir as mesmas águas
e a flor do sabugueiro longe ainda,
somente porque o Inverno
às vezes lhe permite
dias como este, plenos de Maio
que se anuncia e junta ao inventário
as promissórias breves da alegria,
contando como certos
os dias que hão-de vir
e tudo reviver no espanto dos seus olhos.

12

Glorifica o presente,
as imagens reais e aquelas
que adivinha à mesma hora:
hoje a cidade cheia de pessoas,
cidade tão antiga e conservadora,
no entanto povoada de árvores
onde o vento recorda o mar,
ruas que vão sorvendo o caminho do homem
e o casal que imagina sereno e sem tédio,
pleno de tempo, eterno vagamente,
olhando disponível nas vitrines
as enganosas cores deste século,
e em Genève, as galinhas-de-água sob a ponte,
gente no aeroporto com destinos
acolhedores,
tudo sucedendo ao mesmo tempo
no mundo e na cidade onde resiste,
enquanto o rosmaninho floresce no jardim
e lhe dá a certeza de que respirar
a luz do sol permite chamar suas,
inteiramente suas as coisas que vê
ou, seguro, estar certo de se darem:
aquele grego que assava polvos
continua a manter as brasas em Egina,
os clientes almoçam nas mesas sob o toldo,
e as bancas de pistácios esperam os bárbaros
que hão-de chegar de Atenas.
Não é necessário outra vez o ferry-boat,
nem voltar à janela bem amada
angustiadamente
para saber que tudo permanece ileso
e pode enumerar-se, a igreja, o sol que bate
nas paredes de cal, luz que envolve também
as ruínas do templo de Afaia
e os montes tão distantes uns do outros.

TERCEIRA CONJUGAÇÃO

1

Não há como fugir
a um presente que é feito de horas
futuras sem saída.
O sangue arrasta imagens
e vaticínios fáceis
do lado exterior ao tempo,
fulgurações escuras sob a pele
que lhe contém o ser,
e sabe-se mortal quando lhe trazem
à boca o enjoo de ter vísceras.
O que é passado tornou-se excesso.
Ficou gravado
sabe-se lá porquê, por que ordem
haveria de ser fortuito.
Nem a razão de a vida
ter brilhado na infância o justifica.
Nessa altura regia-se
pela vontade
de um deus de catequese,
que depois lavaria as mãos
da sua própria imagem e existência,
e mais que desse deus
a infância era do vento
que a levou ao futuro, devastando-a.
Oh, as conjugações uniram-se
para se destruírem,
implodindo as miragens do passado
e as raras do presente,
às vezes o poisar dos lábios
e os dedos distraídos
no que era a salvação imaginada.
Porém tudo é real de mais
e tudo se liga entre si,
e em horas inconsúteis
o homem às vezes sente
o tempo indivisível que o transforma
em ser predestinado
como a gente que passa na cidade,
certa de que os relógios servem
para ajustar o ciclo do planeta,
e não os dela e o do homem,
fatais como o do velho
sozinho numa cama de hospital
que de modo nenhum
quer a ressurreição e o paraíso.
E agora a casa, o abeto novamente,
a piteira do caos,
os cedros, o carvalho jovem
e a sua celta, arcaica divindade,
as rãs que não coaxam
na piscina mantida pela chuva
de invernos sucessivos,
um charco verde outrora azul
rectângulo de sol e risos, quando
a voz da água cingia os corpos
e os deixava na relva tiritando,
lembrança de um jardim propício
à rodagem de cenas
sobre a conjugação final
e Agosto
numa cidade a arder longe do mar,
cercada de pinheiros.

2

Da desistência sobram
não somente lembranças,
em baldios de cinza sobra tudo
o que não alcançou e não pertence
a nenhum dos pretéritos imediatos,
faz parte de um futuro
que se tornou passado já
por não ter chegado ao seu próprio limiar.
Recolhendo-se a si mesmo, onde viver,
como há-de resistir,
rodeado de imagens que não mais
irão cumprir-se?
Que lhe interessa o inventário,
se tudo que ansiava lhe parece
inumeravelmente abstracto?
O modo como a chuva canta é tão diverso,
o vento pelas ruas encanado
tem outra voz,
os caminhos, a serra, os restaurantes,
a ligeira esperança que era um hálito,
as lentas mãos que tinham, recolhendo,
a intimidade próxima de um cheiro,
o tempo que pousava, longe do
contra-relógio
que ameaça e rebenta o coração
de qualquer um de nós,
tudo se tornou tão abstracto,
tão afastadamente alheio ao homem
quanto alheias e injustas podem ser
as causas da ruína.
Mas ele sabe, mesmo assim, que tem
de desfiar a história, a sua na de todos.
Não sabe é quanta gente na cidade
enumera perante o medo as coisas
que afirmam ser de Deus.
Talvez se revoltasse, dizendo quanto
lera e vira e trazia na memória,
entregando ao acaso a desistência.

3

Somemos os seus passos. Dessa soma
não retira nenhum caminho
ou mesmo utilidade. O que sobeja
é ainda o que está por caminhar,
e apenas desse modo justifica
a força necessária que as aves migratórias
investem na distância entre o horizonte
e o vértice do voo, a teimosia
de que o futuro está ao seu alcance,
e assim é-lhe possível transformar
em vagamente suas as paisagens,
os lugares estranhos por que espera,
um ser subitamente alado
sem metafísica
que vê por entre as árvores
rios, rostos, cidades como nunca viu,
translúcidos e simples, brancos e solares,
distantes da abjecção dos dias
e da palavra escrita acerca desses dias.
As bétulas dos lagos,
o calor das cabanas de madeira,
as janelas abertas para sul
e os seus olhos voltados a norte,
voltados para a aurora boreal
como se fosse o símbolo,
só vagamente o símbolo do deus
que sempre lhe faltou e que recusa,
e na mente imagina ainda
uma luz que pudesse solvê-lo homem
e transportá-lo além desse futuro.
Mas lembra-se do Sol, o deus selvagem
que se afundava no mar
em meio do vapor das nuvens,
frente às inumeráveis cidades costeiras.
A violência eterna e o caos
pertencem ao seu próprio sangue
medido por milésimos na imagem que recorda.
É esse o deus mortal que Galileu
lhe deixou por herança, números desolados
que se tornou tão fácil calcular.
Então, pensa, onde está esse futuro,
e o paraíso,
porquê falar ainda nele ?

4

Há quem tenha um lugar,
quero dizer, aqueles
que olham o céu da sua terra,
ao regressarem
pela linha segura do horizonte,
sem nenhum frio,
ou tédio,
ou carência de gestos maternais.
Não são esses que fazem o balanço
a quanto não possuem de raízes,
ainda que conheçam o passado
como parte impossível da realidade.
E mesmo que seguissem o trilho daquele homem,
recuariam logo, o susto, o medo
de baldios sem cânone,
de objectos sem
clara denominação de origem,
porque não tratam, como ele,
de nenhum inventário, quanto mais
de um rol de coisas tidas sem as ter,
ou tidas no reduto de viver sozinho
num escritório cheio de livros,
as enciclopédias pagas a prestações
há muito tempo,
fósseis de uma outra idade,
alinhados em toda uma prateleira
do cimo
para que ninguém mais lhes toque,
e logo abaixo metros de poesia,
de vidas estendidas por quilómetros
de anseios e poemas.
Conhece os livros quase todos de memória
e ao tacto de esfolhá-los,
muitos com o papel envelhecido,
pergaminhos, a derme dos seus donos
extintos,
de quem só resta o nome e os versos,
nada deles havendo se morreram,
só os vivos que os lêem é que os julgam
imortais ― que tolice!
O homem está nas tintas
para o que os outros pensem:
um dia o leiloeiro vem
e mede com seu metro os livros todos,
não interessa a ordem alfabética
em que os pôs ainda há pouco, desesperado.
Dante há-de ser vendido ao preço de
Danila não sei quantos e
não sabe se Camões em papel bíblia
será avaliado abaixo
de um livro de cozinha regional.
O mais certo é que irão parar
à reciclagem,
coitados dos poetas velhos vivos
e dos poetas novos
como Jorge de Sena assim desfeito.
Um dia o leiloeiro chegará
e há-de levá-los todos em seu camião,
deixando nus os muros
que outrora os defendiam
do frio das estrelas, falsamente.

5

As imagens esparsas seriam de um filme
se a lembrança das coisas reais
lhes não desse volume na memória.
E dessas imagens,
na montanha que viu romper a névoa
quando ia trabalhar, hoje há
um sítio que buscou, perseguição
entre o lixo dos dias e a recusa
de a vida não poder vir a ser outra.
Este é o lado avesso do poema,
é fingir que se têm as palavras,
não do que se nomeia, real ou já perdido,
mas de enumerar gestos, rostos, bens
como árvores queridas longe do cansaço,
e também da revolta, a negação
do lado urbano escuro de que é feito
pelo amassar do tempo, ou seja,
a experiência que é preciso redimir,
tornar abstractamente depurada;
e dar tudo o que não teve à montanha,
perto o rio, a pequena casa branca,
a mesa de verão sob a latada,
o pão, o vinho, a terra estendida ao sol,
os freixos e salgueiros ao longo da ribeira
e um gesto de ternura se assomasse
ao limiar do amor, o quarto de onde
pela janela visse como seu
aquilo que não teve e uns dedos
lhe escrevessem no corpo os nomes todos,
os nomes da montanha, esquecendo
os caminhos antigos,
quando era necessária a esperança.

6

Que futuro haverá no dia-a-dia
a não ser o momento imediato?
Julgamos garantidas
as próximas quarenta e oito horas,
quando afinal o tráfego
irá prevalecer nas ruas
sobre o nosso silêncio,
sem nunca mais se ouvir o bruaá dos carros,
nem sequer à distância
como se fosse o mar na Periférica
vozeando entre os plátanos longínquos
da Porta de Versalhes.
São farsantes os velhos adivinhos,
o futuro não é enumerável,
salvo como a esperança juvenil
que o tem acompanhado,
um optimismo solto sem objecto,
talvez o casario ao entardecer
que assim mudava a vila numa foto,
o pôr-do-sol em Lavre , o carro,
e na berma da estrada para o Sul
pinheiros mansos,
árvores privativas
de um amor que nascera devagar.
Mas isso é de um passado novo
e o homem pode frui-lo,
e ser presente e ser futuro
na imagem que guardou e permanece.
Nada do tempo em volta se extravia
e tudo fica a ser quotidiano
no amanhã, a terceira conjugação
de um rol enumerável
sem predições,
um dia a seguir a outro já sabido.
Anseia-o sem a angústia
que lhe algemava os pulsos,
ó liberdade de não ter
senão o corpo, os olhos, o desejo
de uma sala despida como as celas
que Deus abandonou,
e onde vai entregar-se enfim
à esteira minimal
e à lenta sucessão do sol
como antes os que criam noutra vida.

"Bendita sejas tu, deste-me a chave
do tempo”, diz ainda o homem.

© as musas esqueléticas

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Publicado por mb em 09:10 PM | Comentários (12)

outubro 09, 2004

As Bétulas

Aquelas duas bétulas ali
a longe me levaram ― pudesse eu
ser aquele que, neste instante, fita
outras bétulas, igualmente melancólicas,
na margem do Mar Báltico de cinza,
e não eu, que daqui somente as lembro,
efabulando em mim seres ubíquos,
como se a luz da tarde a todos fosse
entregue ao mesmo tempo, e as suas vidas
pudessem partilhar a solidão
de ser tão vasto o mundo e nós, pequenos
na memória de o termos percorrido,
e todos sermos um, nunca mais sós,
por estarmos em tudo que sabemos
uns dos outros, nos sítios recordados
em que o tempo parou, cheio de brilho.

© as musas esqueléticas

Rascunho

Aquelas duas bétulas ali
a longe me levaram - pudesse eu
ser aquele que neste instante fita
outras bétulas igualmente melancólicas
na margem do Mar Báltico de cinza,
e não eu, que daqui somente as lembro,
efabulando em mim seres ubíquos,
como se a luz da tarde a todos fosse
entregue ao mesmo tempo, e as suas vidas
pudessem partilhar a solidão
de ser tão vasto o mundo e nós, pequenos
na memória de o ter atravessado,
e todos sermos um, nunca mais sós,
por estarmos em tudo que sabemos
uns dos outros, em sítios países lugares nos sítios recordados
em que o tempo parou, cheio de brilho,
e que só por isso hoje nos cintila
.

Publicado por mb em 06:24 PM | Comentários (2)

outubro 07, 2004

A Existência É Um Gráfico

Espesso bloco, e denso, rocha em bruto,
sem brilho os olhos dessa pedra.
Não é possível ver nada e, no entanto,
não se encontram motivos razoáveis
de desespero, a não ser afinal
que as ruas da cidade nos são sempre alheias,
mesmo quando a espiral da fé, subindo,

nos faz crer em cenários com crianças,
com choupos cujas copas ao morrer da tarde
são multidões de pássaros urbanos
que chegaram dos campos em redor,

nos faz crer que as mães hoje
com seus filhos ao colo
se tornam garantia de um tempo impossível
porque vivem além de nós
em cenários como esse,

seres abstractamente leves que
não nos bastam e excluem, lítica
lembrança dolorosa e claridade,
embora acreditemos com indiferença
que as ruas amanhã
podem voltar a ser alegres
e que a existência apenas é o gráfico
claro-escuro do enredo de uma vida.

© as musas esqueléticas

Rascunho

8.10.2004

Espesso monolito bloco, e denso, opaco, rocha em bruto,
sem brilho os olhos dessa pedra.
Não é possível ver nada e, no entanto,
não se encontram motivos razoáveis
de desespero, a não ser afinal
que as ruas da cidade nos são sempre alheias,
salvo mesmo quando a espiral da vida fé, subindo,
Quebra de estrofe
nos faz crer em cenários com crianças,
com choupos cujas copas ao morrer da tarde
são uma multidão multidões de pássaros urbanos,
que chegaram dos campos em redor,
Quebra de estrofe
nos faz acreditar crer que as mães hoje
com seus filhos ao colo
se tornam garantia de um tempo impossível
porque vivem além de nós
quando mesmo em cenários como esse,
seres abstractamente leves que
nos condensam e expulsam e tornam monólitos, lítica
memória lembrança dolorosa de vida e de luz, claridade,
ainda que saibamos que amanhã
as ruas poderão tornar-se alegres
e a existência não ser mais que o gráfico
claro-escuro do enredo da nossa história.

embora acreditemos vagamente
que as ruas amanhã
podem voltar a ser alegres
e que a existência apenas é o gráfico
claro-escuro do enredo de uma vida.

Publicado por mb em 04:52 PM | Comentários (0)

outubro 02, 2004

Olhos

Os olhos das crianças brilham como os dos pássaros.
Eu sei que pouco a pouco o fumo
os vai embaciando até que chegue o tempo
de saber que olhos são os seus,
se continuam tão vivos como antes,
se perderam o brilho sem saber.
Meu avô teve sempre olhos de pássaro.

© as musas esqueléticas

Rascunho

2.10.04

Sem emendas

Os olhos das crianças brilham como os dos pássaros.
Eu sei que pouco a pouco o fumo
os vai embaciando até que chegue o tempo
de saber que olhos são os seus,
se continuam tão vivos como antes,
se perderam o brilho sem saber.
Meu avô teve sempre olhos de pássaro.

Publicado por mb em 10:14 AM | Comentários (12)